“Quem pode se dar o luxo da quarentena?”. Esse questionamento, tão recorrente nos momentos atuais, é gerado em pontos específicos das classes sociais do Brasil. Em um mundo em alerta por conta de uma pandemia causada pelo coronavírus, os principais órgãos de saúde realizam diversas recomendações que, muitas vezes, esquecem a verdadeira realidade de um trabalhador brasileiro. 

O problema é que nos vemos sem saída. Para que o vírus, que possui um alto poder de infestação, pare de se alastrar, é necessário que a população cumpra à risca as recomendações que o Ministério da Saúde tem propagado. Dentre elas, é preciso lavar bem as mãos, manter e reforçar os hábitos de higiene e ficar em casa, sem poder sair para trabalhar ou, simplesmente, comprar um pãozinho na padaria. 

Entretanto, precisamos analisar que, ficar em casa, realizar seu trabalho por meio de home office*, ou o singelo ato de lavar as mãos de uma forma satisfatória, fazendo com que se elimine qualquer vírus, são atitudes que nem todas as pessoas conseguem efetuar. Sendo assim, o próprio ato de se proteger da pandemia, seria um benefício que nem todas as pessoas têm acesso?  

 Os 40% de informais no Brasil

Se um dos objetivos da Reforma Trabalhista era diminuir o número de informais no Brasil, seus métodos ainda não surtiram efeito. O IBGE mostrou em pesquisa realizada no ano passado, que o país abriga mais de 38 milhões de trabalhadores informais, chegando a um número recorde de 41,1% da população. 

Apesar dessa classe estar garantindo sua renda no dia-a-dia, a informalidade não abrange os direitos trabalhistas que essas pessoas precisam para ter condições satisfatórias de exercer o seu ofício. Em um caso de pandemia, em que a orientação mais assertiva contra o contágio, se faz solicitando que os trabalhadores fiquem em casa, os motoristas de aplicativo, diaristas, ambulantes e outros, preferem exporem-se ao risco de ficarem doentes do que não ter dinheiro para comprar o que comer.

Robert Júnior, um motoboy que trabalha nas ruas de Belo Horizonte, relata que até entende, enquanto medida preventiva, que o Governo peça que as pessoas evitem sair de suas casas até para trabalhar, mas que ele não pode acatar o pedido se quiser ter condições básicas de consumo. “Se eu ficar parado por um mês, eu quebro. De onde eu vou tirar dinheiro para comprar o feijão com arroz? Para pagar minhas contas?”, questiona.

Embora as recomendações do Governo, Robert comentou que sua demanda de trabalho cresceu consideravelmente. Isso se deve ao fato que de muitas pessoas estão solicitando serviços de entrega para poderem ficar em casa. Apesar do risco, o motoboy está aproveitando o momento para garantir o seu sustento e de sua família.

Entretanto, Robert mostra preocupação com o momento atravessado pelo país, já que muitos brasileiros em situação de informalidade dependem diretamente do dinheiro conquistado com o trabalho dia após dia. “Nós não temos onde recorrer. Eu vejo o Ministro Paulo Guedes dizendo que vai disponibilizar R$200 para as pessoas passarem por mês. Me diz qual pai e mãe de família consegue passar um mês com R$ 200? Não dá nem para pagar a conta de luz”, reclamou.

O Governo Federal anunciou que irá liberar cerca de R$ 200 reais para os trabalhadores informais e autônomos que tiverem sua renda prejudicada pela desaceleração da economia durante esse período de pandemia. Esse repasse será feito por meio da Caixa Econômica Federal e do INSS em até 3 meses. No total, será destinado 15 bilhões de reais para os trabalhadores. 

Para Robert, o Governo deveria adotar medidas que fossem realmente efetivas para o cidadão brasileiro. “Nós trabalhamos basicamente para pagar dívidas, então o Governo e o Banco Central deveriam prorrogar essas dívidas no mínimo com uns dois meses de prazo e sem juros nenhum. Os bancos também precisam analisar o que eles podem fazer para ajudar a população nesses casos”, sugeriu. 

“Se eu parar de trabalhar, eu não tenho renda”: o microempresário brasileiro

“Beleza, fico em casa tranquilo, mas quem vai pagar minhas contas?”. Essa fala representa o desabafo de Maicon Dias, que está na classe dos microempresários brasileiros. Sem outras garantias de renda, parar com as atividades da empresa significa não ter dinheiro para necessidades essenciais do dia-a-dia. 

Maicon tem uma empresa de móveis planejados em um bairro da capital mineira e já sente os efeitos da crise. Para realizar seu ofício, é necessário que ele e sua equipe vá até a casa do cliente para tirar medidas e fazer o projeto do móvel. Contudo, como será possível que ele vá até a casa do cliente, com mais dois ou três trabalhadores, em um momento de quarentena e isolamento? 

Os problemas que irão acarretar na receita da mobiliadora, influenciarão diretamente na vida do empresário e de seus empregados, já que muitos dependem exclusivamente desse serviço para sustentarem suas casas e famílias. “Muitos dos meus clientes já estão sendo afastados ou demitidos, ficando sem renda. Então, eles estão me ligando para cancelar ou adiar a produção dos móveis e isso vai me deixar sem dinheiro”, desabafou. 

O empresário ainda reforçou que outros colegas da área já estão dispensando seus funcionários e que não consegue ver uma solução para o impacto que várias famílias desempregadas pode gerar no Brasil. “Um amigo meu, empresário também, teve que dispensar 60 funcionários, pelo menos por enquanto, até ver como ficarão as coisas. São 60 famílias com a fonte de renda diminuída. Eu sinceramente ainda não sei o que fazer, pois tenho minhas despesas chegando todo mês sem parar”, disse preocupado.

Para tentar contornar as consequências financeiras do coronavírus, já sentidas pelos micro e pequenos empresários brasileiros, o Governo Federal e alguns estados anunciaram a liberação de bilhões de reais para que a economia volte a ser estimulada e não impacte ainda mais o mercado. A redução do consumo e das atividades já é algo esperado pelos empresários, entretanto, a medida pretende trazer mais liquidez às empresas, diminuindo o pânico já instaurado entre a classe. 

A principal fonte de dinheiro liberada será para capital de giro, em linhas de crédito disponibilizadas pela Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES, Banco de Brasília, BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais) e Desenvolve SP, uma instituição financeira de São Paulo. Esse capital ajudará os empresários a manterem seus negócios e pagarem seus funcionários, além de auxiliar no estoque.  

Profissionais da saúde: a linha de frente do combate ao coronavírus não pode ficar em quarentena

Na noite desta quinta-feira (19), em meio a panelaços e manifestações contra o atual presidente da república Jair Bolsonaro, pôde-se ouvir palmas vindas dos apartamentos das pessoas que reconhecem a nobreza do trabalho dos profissionais da saúde frente ao combate e prevenção ao Covid-19. 

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro ocorrem atos para solidarizar e ovacionar as equipes médicas que expõem suas vidas para tentar salvar outras. A questão é que, apesar de não poderem estar em quarentena e de se manterem em contato com pessoas que podem ou estão infectadas, o que mais gera medo nesses profissionais é a desinformação. 

“Nós temos medo é do pânico que as informações sobre o coronavírus gera no público leigo, porque esse pânico tira o raciocínio das pessoas e daí elas ouvem falar de quarentena e começam a estocar comida, por exemplo”, disse a enfermeira Marília Drummond, que ainda ressaltou que o comportamento dos pacientes nos hospitais ante a uma pandemia não está muito colaborativo. “A pessoa espirra e vai ao posto médico achando que tem coronavírus, e ainda briga e fica bravo, se lá os profissionais decidirem por não realizar o teste”, contou.

A falta de colaboração da população se junta às falhas que o sistema de saúde tem, influenciando em uma sobrecarga mental dos profissionais da saúde, prejudicando a equipe em seu total ao exercer suas funções. A enfermeira destaca que esse pânico se instala na mente dos profissionais também, em um momento que eles precisam de total foco e atenção para lidar com a alta demanda. “Nós começamos a questionar tudo pelo medo. Será que hoje vou chegar no meu trabalho e vai ter um monte de gente morrendo? Será que vai ter tudo para eu atender bem os pacientes? Será que vai ter respirador para todo mundo? Será que vão ter muitos idosos? Então essa é a nossa sobrecarga mental, não é sobre a doença em si, mas sobre os desdobramentos dela”, afirmou.

Outra consequência do coronavírus que faz aumentar o estresse dos profissionais da saúde é o aumento do preço e a escassez dos produtos que servem para a proteção deles, tais como as máscaras e o álcool em gel. Em algumas farmácias do Brasil, o álcool em gel, que custava em torno de R$ 15, após a pandemia, teve um aumento para R$ 30. Inclusive, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública notificou nessa quinta feira (19), as associações de farmácias e supermercados produtores de máscaras e álcool em gel para que justifiquem o aumento no preço desses insumos.

Marília ressaltou que o acesso a esses produtos diminuiu e que isso deixa a equipe médica com medo de aumentar as chances de contrair o vírus. “Nós comprávamos 100 caixas de máscaras cirúrgicas por CNPJ, agora os revendedores estão vendendo uma caixa de máscara por CNPJ. Em hospitais isso é diferente, claro, mas em clínicas odontológicas é isso que vem acontecendo. Eles compravam 20 caixas por CNPJ e agora só compram uma, até porque os fabricantes não têm mais toda essa demanda para disponibilizar”, disse. 

E falando consultório odontológico, a cirurgiã dentista Viviane Dias, mostrou sua preocupação com a classe quanto ao alto nível de aproximação com o paciente, evidenciando uma maior chance de contágio. “Estudos já mostram que o ofício do dentista é o que mais oferece risco de transmissão, devido ao fato de trabalharmos muito próximos às vias aéreas dos pacientes”. 

Justamente por isso, a cirurgiã dentista defende que esses profissionais fiquem em quarentena, para não serem um vetor a mais do Covid-19, evitando a proliferação do vírus entre os dentistas e pacientes, além dos outros funcionários que trabalham em consultórios odontológicos. “Acho prudente que haja suspensão dos atendimentos, até que as coisas se normalizem, para diminuir esse alto risco de transmissão, mesmo que saibamos bem do baque financeiro que a classe terá”, afirmou.

“Quando o coronavírus subir o morro, aí sim o brasileiro vai ver de verdade o que está acontecendo”

“A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e esse lado é o pobre. Então nós estamos com medo desse vírus chegar aqui, porque quando chegar, nós vamos ter que correr para as UPAs, que não consegue atender todo mundo em situação normal, quanto mais em um período de pandemia”. Esse é o relato de Rayanne Gomes, estudante e moradora do bairro Taquaril, na periferia de Belo Horizonte, que afirma que as recomendações do Governo Federal não atende à todas as realidades dos cidadãos brasileiros.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Trata Brasil, no ano passado, mostrou que metade da população brasileira mora em regiões que não possuem coleta de esgoto e 35 milhões de pessoas não tem acesso à água tratada. Como então, solicitar a essa parte da população, que mantenha bons hábitos de higiene, lavando as mãos recorrentemente para evitar a proliferação do vírus, sendo que o acesso ao saneamento básico é escasso?

“Aqui onde eu moro não tem nem esgoto e muitas vezes ficamos até dois dias sem água. Então como vamos lavar as mãos? Álcool em gel é o ‘olho da cara’, em dois dias aumentou mais que o dobro, como vamos comprar?”, questionou Rayanne.

Além de não terem acesso às mínimas condições de higiene para manterem-se protegidos contra o coronavírus, os moradores das periferias brasileiras também não conseguem atender à solicitação do Governo em ficar em casa sem trabalhar. Concentrando um número maior de trabalhadores informais dentro desse contexto socioeconômico, a favela não consegue se sustentar sozinha frente a uma pandemia e prefere se expor ao contágio. “Como uma moradora de periferia fica em casa sem trabalhar sendo que tem filho para sustentar? Se respeitar as recomendações do Governo, ela simplesmente perde o emprego e é mandada embora”, constatou a estudante.

Rayanne ainda ressalta que o simples ato de proteção contra o coronavírus é um privilégio que poucas pessoas no Brasil têm direito, já que somente quem tem dinheiro consegue se prevenir da transmissão e evitar que a doença se instale e caso isso aconteça, tenha um tratamento adequado. “Essa proteção é um benefício que só as altas camadas têm acesso, porque nós aqui temos o risco de pegar a doença e ainda passar para a nossa família, passar para as crianças, para os idosos. Estamos expostos a todo momento e infelizmente não temos condições de nos protegermos”, lamentou.

Devido a todo contexto, a estudante criticou a atitude do Governo, considerando que os órgãos responsáveis não reconhecem quem está do lado periférico, lado esse que, por ser sempre esquecido, é o que mais tem prejuízo de todos os âmbitos. “Injustiça é a palavra. O Governo, na verdade, para a gente, ele nunca é justo. Se fosse justo, nós não estaríamos vivendo da forma que vivemos hoje. A única coisa que ele está fazendo nesse momento de coronavírus é mostrar serviço, porque essas recomendações não são efetivas para a gente daqui das periferias”.

*home office: termo inglês para trabalhar de casa.

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