Quando o Uber chegou, os taxistas se revoltaram. De repente viram seu mercado ameaçado por concorrentes que, além de cobrar mais barato, ainda ofereciam um serviço com mais qualidade, além de ofertar água e bala de graça aos clientes. Teve carreata, tentativa de leis para barrar os aplicativos e muito barulho. Não adiantou, o consumidor gostou do serviço. Os taxistas não tiveram escolha além de aceitar e se adaptar à nova realidade.

De maneira análoga, uma revolução nos mesmos moldes está prestes a acontecer no sistema bancário brasileiro, gestada em plena pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que levará as instituições tradicionais a mudar a forma de relacionamento com seus correntistas, sob o risco de acabarem como os antigos taxistas. Termos como PIX, API e open banking vão mudar radicalmente a forma como as pessoas e as empresas realizam suas transações financeiras, em um prazo já definido pelo Banco Central (BC), a partir de novembro.

E como funcionará o novo sistema? O que é, exatamente, o open banking? E o API? Fique tranquilo! Na sequência, o Unum te explica cada um desses termos e como eles vão mudar a sua vida, na relação com os bancos e as transações financeiras. Acompanhe!

O que é o open banking?

O open banking promete mudar a forma como o mercado financeiro funciona, impactando diretamente bancos, fintechs e outros negócios relacionados. O programa é uma espécie de plataforma que permite a integração das chamadas de interface de programação de aplicativos (API, na sigla em inglês).

Rafael Pereira, CEO da Rebel, uma fintech de empréstimo pessoal online, diz que o open banking é o sistema que permite que outras empresas e serviços acessem os dados dos clientes, com a autorização explícita. Um dos princípios é que os dados bancários pertencem aos clientes e não às instituições financeiras.

Na prática, para o consumidor final, o open banking regulado e funcionando no Brasil permitiria que as pessoas movimentassem suas contas a partir de diferentes plataformas e não só pelo aplicativo ou site do banco. “A ideia é deixar o sistema financeiro mais transparente e competitivo, além de empoderar o cliente, que passa a ser dono de seus dados e pode transacionar isso da forma que lhe for mais conveniente”, explica Rafael Pereira.

A proposta é que as instituições financeiras se concentrem nas suas operações principais e possibilitem que outras empresas tenham acesso às suas interfaces e desenvolvam novos produtos a partir disso. Essa etapa de desenvolvimento e inovação, no entanto, só será possível graças à API.

E o que vem a ser a API?

A interface de programação de aplicativos (API, na sigla em inglês) é um conjunto de padrões de programações que permite que sistemas diferentes interajam entre si. Vale destacar que as APIs são usadas em aplicações de vários tipos e não somente em plataformas financeiras.

Dessa forma, as APIs permitem que desenvolvedores de outras empresas de tecnologia criem outras aplicações e serviços que possam funcionar em conjunto com os dados dos bancos. Ou seja, é uma maneira de fazer com que empresas e desenvolvedores integrem seus respectivos sistemas, compartilhem dados e realizem transações de forma automatizada e segura.

Para dar um exemplo prático, o Google Maps é utilizado por vários sites dentro de suas páginas. Isso é possível porque existe uma API permitindo o uso do serviço em diferentes endereços da internet. Para o usuário, no entanto, o funcionamento da interface é invisível.

Como ficam os bancos tradicionais?

Do ponto de vista dos bancos tradicionais, compartilhar essas informações com mais pessoas representa uma quebra de barreira. Significa que essa categoria vai ter que adaptar seu modelo de negócio. Existe uma certa resistência no setor, porque as empresas mais antigas têm informações exclusivas que hoje não precisam compartilhar com concorrentes como as fintechs, por exemplo. Esse novo modelo os obrigaria a liberar esses dados, caso seja essa a vontade do cliente.

Como vai funcionar o open banking?

O modelo de funcionamento é comparável a um site que permite que o usuário se cadastre via Facebook ou Google, o que gera o compartilhamento dos dados. No caso do open banking, o cliente poderá esco­lher quais informações quer compartilhar e com quais empresas. Com isso, poderá optar por aquelas que ofereçam condições e taxas mais vantajosas para os serviços que lhe interessem.

As mudanças são tão significativas que deixam eufóricos representantes de entidades setoriais como Cláudio Guimarães, diretor executivo da ABBC, associação que defende os interesses de bancos de pequeno e médio porte. “O custo vai cair muito. Finalmente o cliente será rei”, comemora Guimarães.

Integração econômica

É claro que, clientes com histórico de maus pagadores, terão dificuldades em um sistema que promete um alto grau de transparência. A expectativa é que, no auge do funcionamento do open banking, todos os dados estejam disponíveis em um único aplicativo. Caso uma pessoa queira comprar uma casa maior, por exemplo, basta acessar a plataforma e conferir todos os bancos com financiamentos disponíveis para seu perfil financeiro e sob quais condições. “O open banking é a integração de toda a vida econômica em um só lugar, como conta-corrente, poupança, aplicações, compras e meios de pagamento, de forma que se pode avaliar e negociar do mesmo jeito que se faz hoje nas compras a crédito no varejo”, diz Pietro Delai, executivo da consultoria IDC.

Pequenos bancos e fintechs

Para os bancos pequenos e médios e as fintechs que têm dificuldades para fazer análises de crédito mais consistentes, o open banking abre uma avenida de oportunidades. Com a abertura dos dados pessoais, é como se um banco pudesse entrar no sistema de um concorrente e saber tudo sobre o cliente que ele quer conquistar. A Stone, uma fintech que nasceu como operadora de máquinas de cartões e hoje concede crédito a pequenas empresas, já está operando na tecnologia do open banking. Seus clientes podem fazer pagamentos de folha de salários, contas de luz, água, fornecedores, tudo de forma automática, sem o processo manual, via API. Quando a abertura de dados efetivamente acontecer, a Stone já estará com um produto mais bem-acabado.

Bancos maiores

Em relação aos bancos tradicionais, há vantagens e desvantagens em igual medida. No primeiro caso, a disputa pelos clientes com concorrentes menores será atroz. No segundo, é que terão acesso a dados de clientes de outros grandes bancos, que até então não estavam disponíveis. O maior problema que enfrentarão é de natureza tecnológica. Os grandes bancos brasileiros funcionam com sistemas antigos herdados de suas dezenas de aquisições. “É como se eles estivessem numa corrida de 100 metros rasos carregando uma bigorna”, compara Rafael Stark, fundador da fintech Stark Bank, empresa que já nasceu aberta e que opera a tecnologia de API com clientes como o Rappi. Em meio ao processo de implantação do open banking, algumas instituições chegaram a pleitear a alteração do cronograma por não terem condições de atualizar suas plataformas digitais a tempo, mas o Banco Central manteve regras e prazos.

Início da implantação do open banking

A primeira fase começa em novembro, com dados públicos das próprias instituições. Depois serão abertas informações dos clientes e, em outubro de 2021, começam a ser oferecidos produtos em plataformas abertas.

O acirramento da concorrência com as fintechs não é a única dificuldade no horizonte dos bancos tradicionais. Startups como o Nubank, que rapidamente conquistaram milhões de clientes, chegaram a preocupar os bancos em um primeiro momento, mas o incômodo passou rápido. O problema é que as empresas de tecnologia — e nesse caso se incluem as gigantes como Apple, Google e Facebook — também vão entrar na concorrência. “É questão de tempo, ainda mais que elas já estão acostumadas a lidar com plataformas abertas”, avalia o consultor Cezar Taurion, ex-­executivo da IBM. As três big techs, por sinal, já possuem seus próprios sistemas de pagamento, sendo o WhatsApp Pay o mais novo do trio.

Telefônicas não ficam de fora

As empresas de telefonia também prometem entrar no jogo. A Claro já tem tudo pronto para lançar a própria fintech e deu o primeiro passo ofertando crédito, nos moldes do que já fez a Vivo. A multinacional de origem mexicana não se posiciona oficialmente sobre essa nova ofensiva, mas o diretor da operação brasileira, Maurício Santos, diz que o open banking abre a possibilidade para a entrada de outros setores da economia. Obviamente, Bradesco, Itaú e Santander, os principais bancos privados do país, guardam a sete chaves os planos para o embate. E terão de ser ágeis, uma vez que os concorrentes já estão com a faca entre os dentes.

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