Apesar de os homens representarem entre 60% e 80% dos mortos pela Covid-19, as mulheres são afetadas de maneira mais severa pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). Elas estão mais expostas ao risco de contaminação e às vulnerabilidades sociais decorrentes da pandemia, como desemprego, violência, falta de acesso aos serviços de saúde e aumento da pobreza.

Essa é a conclusão do relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, divulgado no final de março pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento.

Em síntese, segundo o estudo, a pandemia afeta mais as mulheres pelos seguintes motivos:

  • 70% dos trabalhadores de saúde em todo o mundo são mulheres, fato que as expõe a um maior risco de infecção pelo novo coronavírus;
  • com o isolamento, os índices de violência doméstica e feminicídio têm aumentado no mundo, como as mulheres estão confinadas com seus agressores e distantes do ciclo social, os riscos para elas são cada vez mais elevados;
  • entre os idosos, há mais mulheres vivendo sozinhas e com baixos rendimentos;
  • A ONU Mulheres estima que, dentre a população feminina mundial, as trabalhadoras do setor de saúde, as domésticas e as trabalhadoras do setor informal serão as mais afetadas pelos efeitos da pandemia de coronavírus;
  • mulheres também são maioria em vários setores de empregos informais, como trabalhadores domésticos e cuidadores de idosos;
  • com a pandemia, mulheres têm de se dividir entre diversas atividades, como: emprego fora de casa, trabalhos domésticos, assistência à infância (cuidado com filhos), educação escolar em casa (já que as escolas estão fechadas) e assistência a idosos da família;
  • antes da Covid-19, mulheres desempenhavam três vezes mais trabalhos não remunerados do que os homens; com o isolamento, a estimativa é que este número triplique;
  • mulheres não estão na esfera de poder de decisão na pandemia: elas são apenas 25% dos parlamentares em todo o mundo e menos de 10% dos chefes de Estado ou de Governo;
  • e, no setor têxtil, um dos mais afetados da indústria em todo mundo e paralisado por causa do trabalho temporário de lojas, as mulheres são três quartos dos trabalhadores no mundo.

Segundo o documento da ONU, “a pandemia teve e continuará a ter um grande impacto na saúde e no bem-estar de muitos grupos vulneráveis”. O texto prossegue: “As mulheres estão entre as mais afetadas”.

Além do aumento das desigualdades e da violência de gênero já existentes, o relatório alerta para o fato de que as mulheres são maioria na linha de frente contra o coronavírus. “As mulheres constituem cerca de dois terços da força de trabalho em saúde em todo o mundo e, embora estejam globalmente sub-representadas entre médicos, dentistas e farmacêuticos, representam cerca de 85% das enfermeiras e parteiras”, diz o relatório “Mulheres no centro da luta contra a crise Covid-19”, da ONU Mulheres.

Já no que diz respeito ao ambiente familiar, o texto lembra que a pandemia tem aumentado os afazeres de trabalho não remunerado entre as mulheres. Além disso, o fechamento de escolas e creches, por exemplo, não apenas aumentará a quantidade de tempo que os pais devem gastar em assistência e supervisão infantil, mas também forçará muitos a supervisionar e liderar a educação em casa.

No que se refere às mais afetadas, o relatório alerta que os piores efeitos da pandemia poderão ser sentidos principalmente entre as mulheres que vivem em países em desenvolvimento. “As consequências econômicas e sociais da crise exacerbarão as desigualdades e a discriminação existentes contra mulheres e meninas, especialmente contra as mais marginalizadas e as que já estão em extrema pobreza”, aponta o documento.

Aumento da violência doméstica

Antes da pandemia, em novembro de 2019, a ONU Mulheres divulgou um relatório em que mostrava que uma em cada cinco mulheres havia sofrido violência física ou sexual dentro de casa nos 12 meses anteriores. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) reportou, também no ano passado, que uma em cada três mulheres sofreu violência física ou sexual.

Em abril, a ONU Mulheres divulgou dados sobre o aumento de violência doméstica desde o começo das medidas de isolamento social:

  • na Argentina, Canadá, França, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, autoridades governamentais relatam crescentes denúncias de violência doméstica e aumento da demanda para abrigo de emergência;
  • a França já registrou 32% do aumento de casos de violência doméstica desde o começo do isolamento social – Em Paris, o aumento foi de 36%;
  • Na China, as denúncias de violência contra a mulher triplicou durante o confinamento;
  • Já Singapura e Chipre registraram um aumento de mais de 30% nas denúncias de violência doméstica.

Na última semana, o Papa Francisco advertiu que a violência doméstica contra as mulheres pode aumentar em consequência das medidas de confinamento impostas contra a pandemia de coronavírus.

Por sua vez, no Brasil, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos informa que a quarentena gerou um aumento de quase 9% no número de ligações para o canal Ligue 180, que recebe denúncias de violência contra a mulher: enquanto a média diária entre os dias 1° e 16 de março foi de 3.045 ligações e 829 denúncias, entre os dias 17 e 25 de março foram 3.303 ligações e 978 denúncias.

Já na cidade de São Paulo, os registros de violência contra a mulher aumentaram 30% em março. Também houve crescimento do número de prisões em flagrante de violência doméstica, passando de 177 em fevereiro para 268 em março.

Antes da pandemia de coronavírus, o Brasil já apresentava taxas superiores à média mundial de violência doméstica e feminicídio, segundo o Monitor da Violência, uma parceria entre o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV USP) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A taxa brasileira é de quatro mulheres mortas para cada 100 mil mulheres, 74% superior à média mundial. Além disso, uma mulher morre a cada sete horas no Brasil vítima de feminicídio.

Como a pandemia influencia no trabalho das mulheres?

A ONU Mulheres estima que, dentre a população feminina mundial, as trabalhadoras do setor de saúde, as domésticas e as trabalhadoras do setor informal serão as mais afetadas pelos efeitos da pandemia de coronavírus.

Para a antropóloga da Universidade de Brasília (UnB) Débora Diniz, o alerta é importante principalmente para a América Latina e Caribe. “Na região, 59% dos trabalhadores informais são mulheres; 93% dos trabalhadores domésticos são mulheres; e 80% delas atuam na informalidade. Mesmo entre trabalhadoras domésticas com empregos formais, apenas 25% estão inseridas em sistemas de seguridade social”, disse a professora.

E no Brasil? Como está a situação feminina perante à crise?

Trabalhadores domésticos, que integram um dos principais setores paralisados pela pandemia, são majoritariamente femininos no Brasil. Já na linha de frente de enfrentamento ao coronavírus, mulheres ocupam 85% das vagas no setor de enfermagem e técnicos de enfermagem e são quase metade dos médicos do país.

Em relação às desigualdades econômicas, antes da pandemia, as mulheres já eram mais da metade do total de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Além disso, no Brasil mais da metade da população de idosos, um dos grupos mais vulneráveis ao coronavírus, é formada por mulheres.

Acompanhe, a seguir, dados que indicam a vulnerabilidade das mulheres (esses indicativos que poderão ser agravados com os efeitos sociais e econômicos da pandemia no Brasil). A fonte dos números estão entre parênteses:

  • 38 milhões de pessoas no Brasil estão abaixo da linha da pobreza; dessas, pelo menos 27,2 milhões são mulheres (IBGE);
  • 41% de todas as mulheres ocupadas no Brasil estão no setor informal; considerando somente trabalhadoras negras e pardas, a taxa de informalidade sobe para 47,8%;
  • mais de 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres; 70% delas não têm carteira assinada (IBGE);
  • 85% de cuidadores de idosos são profissionais mulheres (extinto Ministério do Trabalho);
  • enquanto mulheres realizam 21,7 horas semanais de trabalho não remunerado, os homens desempenham apenas 11 horas na semana​ (IBGE);
  • 31,8 milhões de famílias do país (45,3% do total) são chefiadas por mulheres (Ipea);
  • 85% de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem no Brasil são mulheres, o que equivale a 1,9 milhão de profissionais (Dados Cofen);
  • 45,6% dos médicos no país são mulheres, o equivalente a 223,6 mil mulheres (Dados Cofen);
  • Por fim, 56% dos idosos no Brasil são mulheres (IBGE).

Saúde sexual e reprodutiva

O relatório da ONU Mulheres também aponta que os países devem considerar a saúde sexual e reprodutiva feminina como serviços essenciais neste momento. “O fornecimento de produtos de saúde sexual e reprodutiva, incluindo itens de saúde menstrual, pode ser afetado pela interrupção da cadeia de suprimentos”, alerta o documento.

A antropóloga Débora Diniz ressalta que a opção de não considerar saúde sexual e reprodutiva como serviços essenciais indica que eles podem ser fechados a qualquer momento e que seu financiamento e recursos podem ser desviados para outras áreas. “Isso expõe mulheres a maiores riscos durante gestações: podem procurar abortos inseguros, enfrentar falta de cuidados pré e pós-natais, sofrer violência obstétrica e até morrer em contextos de aumento da mortalidade materna”, afirma Diniz, explicando que outras crises humanitárias causadas por epidemias, como a do Ebola na África, aumentou a violência sexual e a morte materna na região.

No final de março, o Hospital Pérola Byington, na região central de São Paulo, referência no atendimento às mulheres vítimas de violência sexual no Brasil, suspendeu a realização dos procedimentos de interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, no dia 24. O ambulatório do Serviço de Violência Sexual e Aborto Legal havia sido transformado em um local de triagem de gripe. O local voltou a atender vítimas de violência sexual somente após o Ministério Público de SP intervir.

A exemplo do que diz o próprio estudo da ONU Mulheres, a antropóloga Débora Diniz cita que as mulheres da América Latina ainda sentem os efeitos causados pela epidemia do vírus da zika, ocorrida em 2016. “Até hoje, mulheres e crianças afetadas pela zika estão por conta própria: a maioria das mulheres não tem como trabalhar, porque elas se tornaram cuidadoras de seus filhos em tempo integral, às vezes com companheiros que as abandonaram pela dureza da rotina”, explica Diniz.

“Muitas ainda lutam para acessar o Benefício de Prestação Continuada ou a pensão vitalícia para crianças com a síndrome congênita do zika. Segundo a antropóloga, as políticas públicas no Brasil pouco “aprenderam” com a zika. “Não houve mudanças para garantir às mulheres mais acesso a contraceptivos e a informações e serviços de saúde sexual e reprodutiva. Não houve expansão de acesso à água potável e ao saneamento básico para reduzir a exposição ao mosquito vetor. Não houve debates sérios sobre combate à discriminação de crianças com deficiência causada pelo vírus”, conclui a especialista.

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