Os executivos do Banco Inter, mais precisamente o presidente e acionista João Vitor Menin, e o head do marktplace da instituição, Rodrigo Gouveia, coordenaram a criação de um ambicioso projeto para capturar mais sinergias e monetizar com os clientes que fazem parte de sua base.

O modelo foi desenvolvido, silenciosamente, nos últimos quatro meses. No próximo dia 20 de maio, o novo produto será lançado junto com a atualização do SuperApp do banco. “Os clientes que baixarem a nova versão encontrarão a Intercel, uma operação de telefonia celular”, confirma Menin.

Essa operação é o que o mercado chama de operadora virtual, um negócio conhecido como Mobile Virtual Network Operator (MVNO, da sigla em inglês). De acordo com a consultoria Teleco, esse nicho conta com uma participação de 0,57% do mercado. No Brasil, existem 1,3 milhão de aparelhos MVNO.

A infraestrutura será da Surf Telecom, a mesma que faz esse tipo de serviço para a Magazine Luiza e os Correios. Ela proverá tanto dados como voz. O Banco Inter, por sua vez, venderá os planos. João Vitor Menin diz que, em vez de o cliente comprar recarga e usar a Vivo ou outras operadoras, ele poderá usar a Intercel. “Ele já é cliente do Inter, compra produtos no marketplace e agora pode consumir telefonia. É mais uma forma de fidelizar, engajar e monetizar”, pondera Menin.

Hoje, o Inter tem 400 mil clientes que fazem recarga com o banco. “Já temos potencial de distribuidora de planos para chegar a um milhão de clientes até a metade do ano que vem”, diz o presidente do banco.

Para capturar os clientes, a Intercel pretende oferecer planos entre 15% e 20% mais baratos do que os das grandes operadoras. Além disso, a nova operadora cobrirá todo o território nacional. No futuro, a empresa deverá fazer vendas casadas de planos e aparelhos celulares com os parceiros que ela tem no seu SuperApp.

Negócios interligados

O novo negócio do banco Inter vem na esteira de um modelo de várias operações interligadas. “Queremos criar uma teia”, afirma Menin. Uma delas é o SuperApp, com o marketplace lançado em dezembro do ano passado. “A importância desse SuperApp é tão grande quanto a importância dos produtos bancários. Na verdade, é fundamental. Não vejo o Inter sem essa vertical. Ficaríamos como uma empresa manca”, destaca João Vitor Menin.

O aplicativo está com 103 lojas embarcadas e, deste total, 17 já permitem a experiência de compra dentro do app do banco, no que o executivo chama de “end to end” (de ponta a ponta). “Você vai no espaço das Casas Bahia, acha a televisão, clica e compra. Tudo sem sair do app”, diz Menin. Nas outras lojas, o cliente do banco clica e é direcionado para os ambientes digitais dos parceiros.

Isso, entretanto, não muda a monetização do banco, que fica com um take rate, uma participação da venda, variável entre 8% e 10%. A compra em um clique é mais por uma questão de experiência do usuário e, claro, é sempre bom mantê-lo no ambiente próprio.

Empresas como Multilaser, Swarovski, Extra, Unilever, Cobase, entre outras, já fazem parte do marketplace. A drogaria Pague Menos é a próxima a entrar. “Enxergamos que há espaço para chegarmos em pouco mais de 200 lojas. Não mais do que isso”, diz Menin.

O plano é audacioso e, no mínimo, curioso, em se tratando de um banco. “Vamos ter o tamanho de um grande varejista. Neste ano, nossa meta é movimentar mais de R$ 600 milhões na plataforma”, projeta o executivo. A julgar pelos números, é melhor não duvidar.

No primeiro trimestre, 362 mil clientes compraram algum tipo de produto no SuperApp. São produtos que vão de televisões de R$ 5 mil a gift cards de R$ 20 na Google Play. Do início do ano até a primeira semana de maio, o marketplace movimentou R$ 100 milhões. Em abril, o melhor mês de faturamento, acelerado pelo isolamento social por conta do coronavírus, as vendas somaram R$ 31 milhões.

Depois do dia 18 de março, quando a crise causada pela Covid-19 explodiu, o TPV, o volume transacionado na plataforma, cresceu 82%. “Neste mês de maio vamos fazer mais e a tendência é crescer a cada mês”, afirma Menin, com entusiasmo.

E como ficará o Banco Inter?

Atualmente, o Banco Inter possui cinco milhões de correntistas e tem conquistado 320 mil novos por mês. “O crescimento é exponencial. Só que o legal é que, quando você agrega os produtos não financeiros, passa a ter uma terceira dimensão que não tinha antes”, diz Menin. E prossegue. “Não estou trabalhando mais com área, é com volume. E isso é muito poderoso, mais exponencial ainda”, ressalta.

A estratégia lembra a de gigantes de tecnologia chinesas como Alibaba e Tencent. Esta última é dona do WeChat, um superaplicativo que conta com serviços financeiros, varejo, entre outros.

Na América do Sul, quem percebeu o potencial de cruzar varejo e serviços financeiros foi o Mercado Livre, mas com um movimento inverso – do marketplace para as finanças com o Mercado Pago. Outras redes como Magazine Luiza, Via Varejo, B2W e Pernambucanas também estão entrando nesse mercado financeiro.

Início da crise de coronavírus

Quando a crise do coronavírus eclodiu no País, Menin diz que as primeiras ações foram cuidar dos funcionários e cuidar para que os clientes não tivessem problema. “Os bancos, guardadas as devidas proporções, são como hospital, um serviço essencial nessa crise”, afirma. O fato de ser um banco digital foi uma vantagem. Não tinha agência para administrar. O cliente, por sua vez, já está acostumado a operar pelo app e não precisou de atendimento ao consumidor para explicar.

O terceiro ponto é o funding, que é 100% varejo e não institucional. “Fizemos follow on recentemente e temos um dos maiores índices de basileia do mercado”, diz Menin. “Está próximo de 40%”, detalha o mandatário.

Por último, a carteira de crédito, de cerca de R$ 5,5 bilhões, é muito colateralizada. Cerca de noventa e dois por cento dela está concentrada em crédito imobiliário, no home equity e no consignado. Os cartões de crédito representam 8%. “Sempre fomos muito conservadores nesse ponto”.

O banco hoje conta com um caixa de R$ 5 bilhões. “O nosso caixa está aumentando durante a crise”, diz Menin, que prossegue “estamos tendo mais depósitos do que saque porque, como o Inter é o banco do dia-a-dia das pessoas, as pessoas estão investindo ou deixando o dinheiro na conta”.

Isso também mexeu no resultado da instituição. Os gastos dos clientes com cartão de débito, por exemplo, caíram 35% quando comparadas as primeiras duas semanas de março com as duas últimas semanas do mesmo mês. “Para a gente, isso é ruim porque gera menos taxa de intercâmbio, que é um meio de monetizar”.

Na PAI, a plataforma de investimentos do banco, o volume de distribuição de fundos caiu. “Em compensação, vimos um aumento de pessoas fazendo corretagem na bolsa”, diz Menin. “Conseguimos equilibrar com menos renda fixa e mais renda variável”.

Neste ano, as ações do Inter caíram 44,9%. Se analisadas desde março, no início da crise do coronavírus, a queda foi de 43,5%. Na terça (12), sua ação fechou cotada em R$ 8,65. “Certamente ainda tem muita água para passar debaixo da ponte, a guerra ainda não está ganha, mas essa crise está sendo um stress test da vida real para provar o nosso modelo de banco digital”, finaliza João Vitor Menin.

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