Se você deixa os recursos da sua reserva de emergência aplicados em Tesouro Selic (LFT) ou fundos que invistam nesse tipo de papel, deve ter reparado que, no último mês, esses investimentos começaram a ter um comportamento atípico, apresentando retorno negativo. Como isso pode ocorrer? Tesouro Selic não é o investimento de menor risco do mercado brasileiro? Bem, do ponto de vista do risco de crédito, sim. A garantia do governo de fato é a melhor que pode haver no Brasil. Do ponto de vista do risco de mercado, também. Eventos como a desvalorização atual são bastante raros, e a volatilidade desses papéis costuma ser bem baixa. Risco de liquidez, da mesma forma. Você resgata esses investimentos a qualquer momento, com facilidade.

A questão é que não existe investimento totalmente sem risco. Aliás, nem deixar o dinheiro debaixo do colchão é livre de risco. E o que está ocorrendo no mercado de LFT, embora difícil, não é impossível. Nem é a primeira vez que esses títulos dão retorno negativo. Tal fenômeno ocorreu pela última vez em 2002, na chamada “crise da marcação a mercado”. O problema é que, além de ficar apreensivo, você pode também estar chateado ao ter tirado a sua reserva de emergência da poupança ou de um CDB, porque pelo menos nessas aplicações ela rendia pouco, mas rendia alguma coisa. Pelo menos não estava perdendo dinheiro. É possível que até esteja mentalmente brigando com o seu assessor de investimentos, por ter defendido que a melhor aplicação para a reserva de emergência atualmente são os fundos Tesouro Selic de taxa zero.

Diante dessa situação, a questão que se levanta é: o Tesouro Selic e os fundos que nele aplicam perderam sua atratividade como ativos para a reserva de emergência? Se sim, é o caso de trocá-los por outra coisa? Se não, é o caso de diversificar também a reserva de emergência, dado que o risco de desempenho negativo não só existe como está aí, comprovado, para todo mundo ver? Em resumo, as respostas para os questionamentos acima: não, Tesouro Selic não perdeu a atratividade para reserva de emergência. De fato, ainda deve ser a preferência do investidor para este fim. Quanto a diversificar a reserva de emergência em outros produtos, os especialistas divergem sobre o tema. Se o investidor estiver muito incomodado com o atual retorno negativo (ou com a mera possibilidade de haver um retorno negativo eventual, dependendo das condições do mercado), então sim, já existem hoje instrumentos para ele diversificar até a reserva de emergência, embora a preferência deva continuar com o Tesouro Selic e fundos que nele investem.

O que está acontecendo com o Tesouro Selic?

O Tesouro Selic (LFT) é um título público que se propõe a pagar a variação da Selic no seu vencimento. Para quem o vende antes do fim do prazo, o retorno costuma ser positivo e também acompanha a taxa básica de juros. Diferentemente do que ocorre com os títulos prefixados e atrelados à inflação, que têm volatilidade bem mais alta, o Tesouro Selic não costuma dar retorno negativo, podendo ser vendido antes do fim do prazo sem perdas. Em geral, esse título é negociado com certo deságio, o que faz com que, no vencimento, ele acabe pagando Selic mais alguma coisa. Essa taxa a mais estava em um patamar bem modesto. O Tesouro Selic 2025, por exemplo, única LFT vendida no Tesouro Direto atualmente, estava pagando, até o começo de setembro, Selic + 0,03%. Porém, do dia 10 de setembro para cá, esse deságio passou a aumentar e as taxas acima da Selic pagas pelas LFT negociadas começaram a aumentar. Na sexta-feira (2), por exemplo, quem comprasse o Tesouro Selic 2025 contrataria uma remuneração equivalente à Selic + 0,2542% no vencimento.

Os preços dos títulos, por sua vez, recuaram, e isto pôde ser notado tanto no Tesouro Direto quanto no mercado secundário, bem como no desempenho dos fundos DI e Tesouro Selic. O deságio mostrou-se maior nos títulos mais longos, agredindo mais, também, aqueles fundos mais expostos a esses papéis. O Tesouro Selic 2025, por exemplo, recuou 0,46% em setembro.

E por que a LFT está com retorno negativo?

O desempenho recente do Tesouro Selic (LFT) tem muito a ver com três fatores: a taxa Selic extremamente baixa, a deterioração das contas públicas e um fator mais técnico, relacionado a um leilão de títulos realizado pelo Tesouro no dia 10 de setembro. Com o aumento de gastos para combater os efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a situação fiscal brasileira, que já era frágil, se deteriorou ainda mais. Espera-se um aumento da dívida e do déficit públicos, ao mesmo tempo em que a economia vive um período de contração.

Isso elevou o risco-país e fez com que os juros de médio e longo prazo disparassem, deixando a curva de juros mais inclinada. Em outras palavras, os juros mais curtos permaneceram muito baixos, uma vez que o momento de recessão exige estímulos monetários, enquanto os juros mais longos se elevaram. Soma-se a isso a pressão recente sobre alguns índices de inflação, ao mesmo tempo em que não parece haver muita definição do governo quanto ao que será feito para aliviar a questão fiscal. Ainda há muitas dúvidas quanto ao andamento das reformas, manutenção do teto de gastos, além dos embates entre o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe econômica.

Essa conjuntura, portanto, fez com que o mercado passasse a perceber o governo brasileiro como mais arriscado, e essa Selic de 2% talvez não esteja refletindo muito bem esse risco. Apesar de o mercado não prever uma alta de juros tão cedo – e o Banco Central já sinalizou que de fato a Selic deve se manter no patamar atual por algum tempo -, os investidores já começam a achar que uma remuneração de apenas 2% ao ano para financiar um governo com tanto risco fiscal talvez seja muito pouco. Temos aí um cenário dado para o mercado começar a pedir mais taxa nas LFT, aumentando o deságio desses títulos.

Pois bem, no dia 10 de setembro, o Tesouro fez um leilão de LFT e de títulos prefixados (LTN), colocando mais LFT do que o mercado era capaz de absorver – até porque, neste momento de curva inclinada, os prefixados exibem taxas bem mais atrativas que a parca Selic. Com excesso de oferta de Tesouro Selic (mais vendedores do que compradores) os vendedores topam deságios cada vez maiores para se desfazerem dos seus papéis. Os compradores, por sua vez, querem uma taxa maior que a Selic para topar uma LFT. Note que o deságio do Tesouro Selic atualmente não é enorme, mas em um cenário de Selic a 2%, é o bastante para machucar o retorno do investidor.

Há risco de calote para o Tesouro Selic?

Ora, mas se o mercado acha que o juro deveria ser mais alto – tanto que está precificando juros bastante elevados no médio e no longo prazo -, o Tesouro Selic não deveria ter ficado mais atrativo? Afinal, sendo uma aplicação pós-fixada, seu retorno aumenta junto com a Selic. A LFT costuma ser a aposta quando se acredita que o juro vai subir. “Em condições normais sim”, responde Luís Barone, sócio-diretor da Ativa Wealth Management. “Mas o Tesouro inundou o mercado de LFT”.

E risco de calote, existe? Afinal, o risco fiscal aumentou, e os investidores estão “punindo” as LFT. É para ficar preocupado? “Não, estamos bem longe disso, é mais circunstancial”, diz Barone. “Em última instância, o governo é capaz de emitir moeda para pagar a dívida interna. O Tesouro apenas fez uma gestão ruim de rolagem da dívida, mas acredito que até o fim do ano deva estar normalizado”.

Esta é também a opinião de Marcos De Callis, estrategista da Hieron Patrimônio Familiar e Investimento. “O governo sempre tem a possibilidade de imprimir reais e pagar a dívida. Então calote a gente não acredita. Isso não aconteceu nem nos nossos piores momentos. Tivemos inflação, mas o governo deixar de pagar nunca aconteceu, e provavelmente não vai acontecer”, diz. “Não vejo o governo brasileiro deixando de pagar um ativo como a LFT. Ou qualquer outro ativo, na verdade. Mas não seria esse tipo de título, que compõe a carteira de fundos e a poupança das pessoas, que viria a sofrer”, diz Marcelo Flora, sócio responsável pelo BTG Pactual Digital. “Dado o problema fiscal do governo, o leilão de 10 de setembro acendeu a luz amarela do mercado. O que vem acontecendo com as LFT não precifica um calote, mas sim uma deterioração das contas públicas, que precisa ser endereçada”, diz Daniel Januzzi, economista da Magnetis.

De fato, o maior problema em relação a essa questão do desempenho negativo da LFT é uma possível contaminação do restante do mercado de títulos públicos, que poderia ficar, portanto, disfuncional.

Enfim, diversificar ou não a reserva de emergência?

Chegamos então à questão crucial. Dado que nem o Tesouro Selic é “à prova de balas”, não seria o caso de diversificar também a reserva de emergência, lançando mão de aplicações que não estejam sujeitas a esse risco de marcação a mercado, mas sim a outros tipos de risco? É o caso da caderneta de poupança e dos CDBs com liquidez diária, que estão expostos ao risco da instituição financeira, ainda que com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para aplicações de até R$ 250 mil por CPF.

O problema é que, mesmo com a garantia, se a instituição financeira quebrar, o recurso do investidor ainda pode ficar preso por algum tempo. Pode levar de alguns dias a alguns meses para o FGC pagar as garantias. E, nesse meio tempo, o investidor também fica sem rentabilidade. No caso da poupança, é possível mitigar esse risco aplicando-se apenas em grandes bancos, cuja probabilidade de quebra, no cenário atual, é remota. Restarão apenas os problemas de rentabilidade, mas é melhor render alguma coisa do que ter desempenho negativo, certo?

Já no caso dos CDBs, a maioria daqueles que pagam 100% do CDI ou mais com liquidez diária são oferecidos justamente pelos bancos médios, que são os que têm maior risco de quebra. Nos grandes bancos, em geral, os CDBs pagam muito pouco. Porém, há exceções. O Itaú, por exemplo, oferece um CDB com liquidez diária e remuneração de 100% do CDI a seus clientes Personnalité, segmento de alta renda do banco, mas que não chega a ser exclusivo para milionários.

Finalmente, temos as opções das contas de pagamento, como a NuConta, que aplicam os recursos do cliente em títulos emitidos pela própria instituição ou em Tesouro Selic. No caso da NuConta, mesmo aqueles recursos aplicados em Tesouro Selic têm pago o valor prometido pela instituição, que é de 100% do CDI, apesar do retorno negativo do papel.

Embora haja garantia do governo para esses títulos, caso a instituição vá à lona, o cliente estaria sujeito ao mesmo problema dos CDBs: ficar sem acesso aos seus recursos por algum tempo, até que a sua carteira de títulos seja transferida a outra instituição e fique acessível novamente.

Como você pode ver, em todas essas alternativas nós temos ou um problema de rentabilidade (poupança e CDBs de grandes bancos) ou um risco de falta de acesso temporário às reservas em caso de quebra da instituição financeira (CDBs de bancos médios e contas de pagamento). Então, de cara, já dá para perceber que não é o caso de substituir completamente o Tesouro Selic ou os fundos que nele investem por um desses outros ativos citados anteriormente. E quanto a uma diversificação? Bem, entre os especialistas, não houve unanimidade. E tudo também depende muito dos ativos aos quais você, como investidor, tem acesso.

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