A empresa argentina de comércio eletrônico Mercado Livre ultrapassou a mineradora brasileira Vale, se tornando, assim, a companhia mais valiosa da América Latina. O fato se deu na última quinta (6).

Ao fim do último pregão, o Mercado Livre era avaliado em US$ 60,6 bilhões, ao passo que a mineradora brasileira tinha avaliação de US$ 59,3 bilhões. Os dados foram divulgados pela consultoria Economatica.

Na terceira posição do ranking ficou a Petrobras, com US$ 57,5 bilhões.

Avanço no segundo trimestre do ano

Com capital aberto na bolsa americana Nasdaq, a empresa argentina foi uma das grandes vencedoras do segundo trimestre de 2020, com suas ações se valorizando 101,8% entre abril e junho. Isso a deixa apenas atrás da Tesla, que saltou 106,1%, entre as cem empresas que fazem parte do índice de tecnologia.

E também no Brasil, onde companhias como Magazine Luiza, B2W e Via Varejo têm registrado bons desempenhos, por conta do consumo na pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a Mercado Livre também deve ser a grande “vencedora”.

Esta avaliação foi feita pelo Bradesco BBI no fim de julho, quando elevou sua recomendação para a companhia para o equivalente a compra. “Esperamos que o Mercado Livre tenha um trimestre muito mais forte no Brasil do que o esperado no início da crise do Covid-19, em março”, disseram os analistas, à época.

Ainda de acordo com estes analistas, a companhia argentina deve adicionar mais crescimento de vendas online (GMV), com cerca de R$ 4 bilhões, se comparado com os pares locais, cuja expectativa é de aumento de R$ 3 bilhões a R$ 3,5 bilhões.

A lista das empresas mais valiosas da América Latina

Conforme o levantamento realizado pela Economatica, das 20 empresas mais valiosas da América Latina, 14 são brasileiras. O México ficou com quatro representantes, enquanto Colômbia e Argentina tiveram apenas um representante cada.

O setor financeiro foi o grande destaque do ranking, com sete companhias, sendo todas elas do Brasil: os bancos Itaú, Bradesco, BTG, Santander Brasil e Banco do Brasil, além da B3 e também a XP Inc., que também abriu seu capital nos Estados Unidos e está em nono lugar, avaliada em US$ 27,59 bilhões.

Do México, as empresas da lista foram Wal-Mart Mexico, América Móvil, Grupo México e Fomento Economico Mexicano SAB, ao passo que a representante colombiana foi a petroleira Ecopetrol.

Confira, na sequência, o ranking completo.

Faz sentido o Mercado Livre ultrapassar empresas como Petrobras e Vale?

A notícia de que o Mercado Livre ultrapassou empresas do porte da mineradora Vale, da petroleira Petrobras e o banco Itaú em valor de mercado mexeu com os investidores. Afinal, assim como acontece nos Estados Unidos, finalmente uma marca da ‘nova economia’ passou a valer mais do que empresas consolidadas e ligadas a ‘velha economia’. Ao contrário das empresas listadas na bolsa americana, a chegada ao topo do Mercado Livre conta com outros atributos. Acompanhe a análise na sequência.

O primeiro destaque fica por conta da escalada do dólar frente ao real em 2020. De janeiro para cá, a moeda americana saiu de R$ 4,01, no primeiro pregão do ano, para R$ 5,41 atualmente. Ou seja, o dólar ganhou 35% frente ao real, o que impacta diretamente nesse resultado.

Tal fato ocorre porque, como o Mercado Livre é listado na Bolsa de Nova York, a sua cotação já é em dólar. O mesmo não ocorre com Petrobras, Vale e os bancos nacionais, que estão na B3 e tiveram uma grande desvalorização em seu valor de mercado quando é realizada a conversão. “É lógico que, se tivermos uma desvalorização do dólar, isso impactará diretamente o valor de mercado das empresas listadas no Brasil como um todo”, diz Igor Cavaca, analista de renda variável da corretora Warren.

Uma prova disso pode ser vista no gráfico abaixo, feito pela consultoria Economatica. A Vale, recentemente, alcançou a sua cotação histórica, mas isso não se reflete no valor de mercado em dólar. Se pegarmos o fechamento do pregão desta sexta-feira (7), a mineradora alcançou um valor de mercado de R$ 320 bilhões, 13% acima do registrado no início do ano. Porém, ao convertermos, a empresa passa a valer “apenas” US$ 57,1 bilhões.

O mesmo pode ser observado com relação à Petrobras, que sai de R$ 301 bilhões para US$ 55 bilhões – porém, neste caso, a empresa acumula uma queda de quase 25% desde janeiro.

Isso quer dizer que o Mercado Livre está supervalorizado? Não necessariamente. A empresa vem entregando resultados trimestre após trimestre e tem se destacado, juntamente com o Magazine Luiza, como a empresa mais bem posicionada no comércio digital no Brasil.

Ao contrário da companhia comandada por Frederico Trajano, no entanto, ela também tem uma operação internacional robusta, especialmente na Argentina, seu país de origem, além do México. Suas ações dispararam 108% desde o primeiro pregão de 2020.

Caso o dólar comece a perder força frente ao real, no entanto, Petrobras, Vale e outras empresas da bolsa brasileira ganharão valor de mercado automaticamente (na moeda americana, obviamente). Segundo o Boletim Focus, que reúne as previsões de bancos e corretoras no país, a moeda americana deve fechar o ano aos R$ 5,20. Caso fosse essa a cotação atual, a Vale já teria ultrapassado o Mercado Livre, ao valer R$ 61,5 bilhões, neste exemplo.

 

E dá para se comparar?

Valor de mercado é valor de mercado – estando em dólar ou real. Mas uma coisa é fato: Petrobras e Vale continuam sendo empresas mais robustas, tanto pelo tempo de existência quanto em resultados. O Mercado Livre é uma empresa relativamente mais nova e que continua investindo forte para um crescimento acelerado, mesmo que isso represente um prejuízo ao final de cada trimestre.

Em 2019, por exemplo, o Mercado Livre faturou US$ 2,3 bilhões, um crescimento de quase 65% em comparação ao ano anterior. O seu prejuízo, no entanto, também deu um salto: US$ 172 milhões, 371% a mais do que em 2018. No primeiro trimestre deste ano, um crescimento de 38% nas vendas e uma inversão de um lucro de US$ 11,8 milhões para prejuízo de US$ 21,1 milhões.

A Vale, mesmo após as tragédias de Brumadinho e Mariana, reportou resultados bem diferentes do Mercado Livre. No primeiro semestre deste ano (o Mercado Livre ainda não divulgou o resultado do segundo trimestre), a empresa teve uma receita de R$ 14,5 bilhões e um lucro de US$ 1,2 bilhão.

Isso quer dizer que a Vale é, necessariamente, melhor do que o Mercado Livre? Não, na visão de Adeodato Volpi Netto, sócio da casa de análise Eleven Financial. “Estamos comparando laranja com cacho de banana”, analisa o especialista. “São empresas completamente diferentes, não comparáveis, em um mundo que transforma todas as métricas de valuation de tecnologia para uma realidade não comparável”, afirma Volpi Netto.

O que motivou isso foi o avanço das big techs na bolsa de valores. A Apple disparou em 2020 e já vale US$ 1,9 trilhão – mais do que o próprio PIB do Brasil. Recentemente, a empresa fundada por Steve Jobs se tornou a mais valiosa do mundo, ao ultrapassar a petroleira saudita Saudi Aramco. A Amazon não vem muito atrás, pois tem um valor de mercado de US$ 1,58 trilhão. “As empresas de tecnologia tiveram um crescimento muito grande porque há a expectativa de que, em breve, vão divulgar resultados muito melhores”, diz Cavaca, da Warren. Logo, o mercado compra pensando no valor futuro. “No caso do Mercado Livre, esse valor só vai ser confirmado se, efetivamente, a varejista apresentar esse crescimento constante. Aí, sim, vamos poder falar que o valor dela suplantou o das grandes empresas de commodities”, afirma o analista.

A expectativa pode ser diferente da realidade, é verdade. Mas diversos especialistas acreditam que o movimento de alta do Mercado Livre tem tudo para ser constante. No fim de julho, o Bradesco BBI fez um relatório afirmando que, durante a pandemia, a empresa argentina seria a “grande vencedora” do setor durante a quarentena – e recomendou a compra das ações do Mercado Livre.

Isso é um fator extremamente positivo. Afinal, nem mesmo grandes empresas estão conseguindo fazer frente à empresa argentina no mercado brasileiro. Um exemplo é a Amazon, que o próprio COO do Mercado Livre, Steleo Tolda, afirmou que a empresa de Jeff Bezos ainda tem uma “presença tímida” por aqui.

O ponto positivo disso tudo é que as empresas de tecnologia latinas estão mostrando que podem, sim, se destacar em serviço e em valor de mercado. E se “os dados são o novo óleo”, quem sabe empresas locais também não se destaquem junto aos gigantes americanos de tecnologia.